Consumidor Cidadão. Por quê?

Porque as sociedades precisam de consumidores conscientes de seus direitos, mas também de suas obrigações. O uso livre e (nem sempre!) inofensivo das faculdades individuais voltadas para o exercício do consumo, bem como a relação que daí se estabelece com provedores de bens e serviços privados e públicos, deve ser protegido pelo estatuto legal (direitos do consumidor). Todavia, a reflexão sobre as escolhas e o ato de consumir deve ter como ponto de partida o reconhecimento da racionalidade limitada do homem e ser mediada pela avaliação dos impactos do gasto sobre as finanças da família, sobre a mobilização de recursos pela sociedade, enfim, sobre o bem-estar da coletividade. Nas sociedades de mercado contemporâneas, o ato de consumo, além do atendimento das necessidades e da mera fruição, é também exercício de cidadania. Este espaço foi criado, como um fórum aberto, para informar e discutir os diversos aspectos do consumo e para que cidadãos possam compartilhar suas experiências, positivas e negativas, no exercício do consumo, o que abrange não só a sua relação com fornecedores de bens e serviços, mas também a reflexão sobre a economia familiar, o consumo consciente e as regras de proteção ao consumidor.

João Bosco Machado

Não se julga suficiente que a lei garanta a cada cidadão o livre e inofensivo uso de suas faculdades para o seu próprio desenvolvimento físico, intelectual e moral. Exige-se, ao contrário, que espalhe diretamente sobre a nação o bem-estar, a educação e a moralidade.

Frederic Bastiat

A contabilidade criativa (e quase sempre irracional) do consumidor

 

Contabilidade mental

Você, consumidor, já se viu diante de algumas destas situações?

 

  1. No mês passado, você saiu de férias e realizou gastos extras no cartão de crédito. Chega a fatura e você percebe que não dispõe de recursos em conta corrente para liquidar o cartão. Decide financiar uma parte do valor devido no crédito rotativo do cartão de crédito pagando juros de 270% ao ano. Todavia, você tem recursos guardados na conta poupança, reserva que você pretende destinar à troca do automóvel e que rendem cerca de 6% ao ano.
  2. A sua disposição a fazer compras de bens supérfluos com cartão de crédito é sempre muito maior do que a propensão a gastar o dinheiro que se encontra em sua carteira ou depositado no banco. É ou não é verdade?
  3. Suas taxas de colesterol estão altas e o médico prescreve para você uma dieta bastante restritiva e exercícios físicos. Você tem se esforçado nas últimas semanas e conseguiu seguir as recomendações médicas. Mas chega a época das festas de fim de ano e a coisa desanda. Muita comida e bebida e nenhuma caminhada durante pelo menos duas semanas. A história que você conta para você: “tudo bem, nada mais justificável que descumprir as recomendações médicas por um tempinho. Afinal, não dá mesmo para resistir à rabanada da vovó Didica, ao leitão assado da Irene e àquela champanhe que o seu cunhado trouxe da França. Você jura que no dia 1º de janeiro retomará o caminho da saúde: promete seguir uma dieta ainda mais rigorosa e caminhar cinco vezes por semana ao invés das três habituais.
  4. O seu empregador oferece a você a oportunidade de efetuar o adiantamento de 50% do seu 13º salário no primeiro mês do ano. Você recusa a oferta porque sabe que tem muitas despesas em dezembro e prefere receber o valor integral do 13º no fim do ano.
  5. Quarta-feira é o dia que você e sua mulher reservam para uma ida ao cinema. Da última vez, o filme escolhido não agradou a nenhum dos dois, mas, como vocês já tinham pago, assistiram a fita até o final, mesmo tendo a opção de ir para casa e assistir na Netflix o último capítulo daquele seriado que vocês adoram.

 

O que aconteceu nesses casos? O que o consumidor faria se fizesse cálculos absolutamente racionais?

 

  • 1. não se endividaria no rotativo do cartão de crédito pagando juros estratosféricos quando dispõe de recursos aplicados na poupança, mesmo que isso signifique o adiamento da troca do automóvel.

 

  • 2. definiria um orçamento mensal para as compras consideradas supérfluas e não utilizaria de forma alguma o cartão de crédito quando o lojista oferecesse a você um bom desconto para pagamento em dinheiro ou no cheque.

 

  • 3. seguiria as recomendações médicas e procuraria manter permanentemente hábitos de vida saudáveis.

 

  • 4. aceitaria a oferta do empregador, pediria o adiantamento da parcela do 13º salário e destinaria os recursos para uma aplicação financeira. Assim, no mês de dezembro, disporia de mais recursos para fazer frente às despesas de fim de ano.

 

  • 5. sairia no meio do filme e voltaria para casa para assistir o último capítulo do seriado.  Não há motivo para ficar no cinema, mesmo tendo pago as entradas,  assistir a um filme que não agrada e desperdiçar o seu precioso tempo. Afinal de contas não faz sentido trocar um bom seriado por um mal filme apenas porque você pagou pela escolha errada.

 

Contudo, na realidade, o que acaba acontecendo é que, em contextos como esses em que estamos diante de uma escolha, nós não consideramos todas as consequências dela e acabamos fazendo uma escolha irracional.

Vale, portanto, a pergunta: por que o consumidor toma decisões contrárias aos seus interesses? A resposta tem a haver com o processo psicológico que os agentes econômicos utilizam para classificar e mensurar seus ativos. Sem se dar conta, elas montam balanços contábeis nos quais recursos financeiros que, em princípio deveriam ter o mesmo valor – como no exemplo do dinheiro gasto através do cartão de crédito, comparado com aquele que saiu da sua carteira ou da conta corrente –, passam a ser não transferíveis ou substituíveis entre si, como se existissem distintos escaninhos mentais para o dinheiro (ou para a saúde, para o tempo, etc). Isso quer dizer que as pessoas agem como seres humanos – capturadas pelos desejos e pela emoção, que cometem erros sistemáticos de avaliação e que, por conta de tudo isso, acabando tomando decisões precipitadas ou baseadas na intuição – e não como agentes econômicos puramente racionais.

Estas operações são chamadas de “contabilidade mental” e a identificação deste fenômeno é um dos achados originais do professor da Universidade de Chicago, Richard H. Thaler, agraciado com o Nobel de Economia em 2017 como reconhecimento de suas contribuições na área da economia comportamental, disciplina que estuda o processo de tomada de decisão e questiona um dos pilares da teoria econômica tradicional – o pressuposto de que os agentes econômicos são seres estritamente racionais, capazes de fazer avaliações consistentes baseadas em cálculos de custo e benefício que resultarão sempre em escolhas ótimas.

Na prática, a teoria da contabilidade mental demonstra que o processo de tomada de decisão é conduzido pelas pessoas de maneira limitada, porque deixamos de considerar todas as consequências de nossas escolhas ou porque minimizamos os efeitos negativos delas. Desconsideramos a amplitude dos contextos e nos iludimos separando coisas que estão estritamente relacionadas e colocando-as em compartimentos mentais estanques. Para superar esses problemas é imprescindível que nós, consumidores, procuremos examinar e reconhecer todo o espectro de consequências que resultam dos processos decisórios aos quais estamos submetidos no dia a dia. Portanto, foco no processo de tomada de decisão e uma avaliação criteriosa e abrangente, pautada  pelo aprendizado com as experiências e conduzida pelo imperativo da razão. Essas são providências que podem evitar que o consumidor experimente os impactos negativos gerados pela contabilidade mental. Fácil não é, mas a prática leva ao aperfeiçoamento e a decisões menos contaminadas pelas nossas falhas cognitivas.

João Bosco M. Machado

Comprar ou não comprar, eis a questão

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O consumidor e seus conflitos decisórios

 

Não faz três meses que você, consumidor, terminou a reforma da sala de estar do seu apartamento. A obra durou uns tantos meses e custou-lhe muita chateação: atraso no cronograma, padrão de acabamento aquém do esperado e orçamento estourado que o obrigou a fazer um empréstimo bancário. Hoje, seu orçamento doméstico está bastante apertado por conta das prestações assumidas desde a contratação do financiamento que foi necessário para viabilizar o término da obra.

Mas eis que chega a semana da “Black Friday” e, passeando pelo shopping, você fica tentado pela promoção do ar condicionado split que gostaria de ter instalado na sala em substituição ao sistema de refrigeração, ainda operacional, mas que já tem alguns anos.

Surge o conflito: você sabe que está apertado e que não dispõe de fundos para adquirir a nova aparelhagem de ar condicionado, mas a oferta é tentadora, o preço é muito bom e o produto pode ser pago em três vezes “sem juros”. Mais um encargo, o risco de entrar no cheque especial é grande, mas, do outro lado da balança, tem uma vozinha interior dizendo: “a oferta é imperdível, compra logo!” Ainda em dúvida sobre como proceder, você começa a construir argumentos para justificar a compra: “vou gastar muito menos com a conta de luz no verão porque o novo sistema de refrigeração é muito mais econômico; além disso, é quase certo que no próximo mês aquele cliente feche o contrato de consultoria e assim me livro desse aperto financeiro.”  Na briga entre o consumidor ajuizado e o impulsivo, todos nós sabemos que o último tende a vencer a disputa: a nova aparelhagem chegará em sua casa na próxima semana e – é, você se “esqueceu” –  terá de desembolsar mais uma boa grana na instalação.

A experiência acima relatada não constitui nenhuma novidade para nós, consumidores. Já estivemos diante de inúmeras situações em que se estabelece um conflito no processo decisório. Esse contexto é denominado pela psicologia e pela economia comportamental como um caso de “dissonância cognitiva”. O fenômeno não é senão a identificação por nós de percepções (cognições) contraditórias entre si. A teoria da dissonância cognitiva informa que, na presença desses conflitos, criamos estímulos para gerar novos pensamentos ou crenças, de tal forma a modificar aquelas crenças e pensamentos pré-estabelecidos, e assim reduzir a quantidade de dissonância (conflito) entre as cognições. Convivemos mal com os conflitos de ideias ou de vontades; eles produzem ansiedade e a busca natural do ser humano é pelo conforto cognitivo, a supressão da dissonância cognitiva, ainda que essa batalha seja quase sempre conduzida pelo autoengano.  Em termos mais simplificados, pode-se dizer que, diante do desconforto psicológico gerado por um conflito decisório de consumo, tentamos dissolvê-lo criando justificativas para que a balança penda para um dos lados. A voz do lado racional – as razões que sugerem que a aquisição do bem ou serviço pode acarretar problemas financeiros – é soterrada por uma miríade de argumentos que apontam para as vantagens que se poderá extrair da compra. A dissonância cognitiva foi solucionada, pelo menos até o mês seguinte, quando o consumidor terá de lidar com as consequências financeiras da compra impulsiva.

João Bosco M. Machado

Veja também outras postagens sobre a temática das decisões de consumo:

Comprar ou não comprar… quem decide o jogo?

Por que o controle de dados pessoais é tão importante para o consumidor cidadão?

ControledeDados

O historiador israelense, Yuval Noah Harari, alerta: os donos dos dados serão os donos do futuro

“Quem é o dono dos dados?”

“Se quisermos evitar a concentração de toda a riqueza e de todo o poder nas mãos de uma pequena elite, a chave é regulamentar a propriedade de dados.  Antigamente a terra era o ativo mais importante no mundo, a política era o esforço por controlar a terra, e se muitas terras acabassem se concentrando em poucas mãos – a sociedade se dividia em aristocratas e pessoas comuns. Na era moderna, máquinas e fábricas tornaram-se mais importantes que a terra, e os esforços políticos focam-se no controle desses meios de produção. Se um número excessivo de fábricas se concentrasse em poucas mãos – a sociedade se dividiria entre  capitalistas e proletários. Contudo, no século XXI, os dados vão suplantar tanto a terra quanto a maquinaria como o ativo mais importante, e a política será o esforço por controlar o fluxo de dados. Se os dados se concentrarem em muito poucas mãos – o gênero humano se dividirá em espécies diferentes.

A corrida para obter dados já começou, liderada por gigantes como Google, Facebook e Tencent. Até agora, muitos deles parecem ter adotado o modelo de negócios dos ´mercadores da atenção´.  Eles capturam nossa atenção fornecendo-nos gratuitamente informação, serviços e entretenimento, e depois revendem nossa atenção nos anunciantes. Mas provavelmente visam a muito mais do que qualquer mercador de atenção anterior. Seu verdadeiro negócio não é vender anúncios. E sim, ao captar nossa atenção, eles conseguem acumular imensa quantidade de dados sobre nós, o que vale mais do que qualquer receita de publicidade. Nós não somos seus clientes – somos seu produto.

A médio prazo, esse acúmulo de dados abre caminho para um modelo de negócios inédito, cuja primeira vítima será a própria indústria da publicidade. O novo modelo baseia-se na transferência da autoridade de humanos para algoritmos, inclusive autoridade para  escolher e comprar coisas. Quando algoritmos escolherem e comprarem coisas para nós, a indústria da publicidade  tradicional irá à falência. Considere o Google. O Google quer chegar a um ponto no qual poderemos perguntar-lhe qualquer coisa e obter a melhor resposta do mundo. O que vai acontecer quando pudermos perguntar ao Google: “Oi, Google, com base em tudo o que você sabe sobre carros e com base em tudo o que você sabe sobre mim (inclusive minhas necessidades,  meus hábitos, minhas opiniões sobre o aquecimento global, e até mesmo minhas ideias sobre o Oriente Médio), qual é o melhor carro para mim?” Se o Google for capaz de dar uma boa resposta, e se aprendermos com a experiência a confiar no bom senso do Google em vez de em nossos sentimentos facilmente manipuláveis, qual será a utilidade das propagandas de carro?

No longo prazo, ao reunir informação e força computacional em quantidade suficiente, os gigantes dos dados poderão penetrar nos mais profundo segredos da vida, e depois usar esses conhecimento não só para fazer escolhas por nós ou nos manipular mas também na reengenharia da vida orgânica e na criação de formas de vida inorgânicas. Vender anúncios pode ser necessário para sustentar os gigantes no curto prazo, mas eles frequentemente avaliam aplicativos, produtos e companhias em função dos dados  que colhem deles, e não do dinheiro que eles geram. Um aplicativo popular pode não ter um bom modelo de negócios e até mesmo perder dinheiro no curto prazo, mas na medida em que absorver dados pode valer bilhões. Mesmo que não se saiba como fazer dinheiro com dados hoje em dia, vale a pena tê-los porque eles podem ser a chave para controlar e modelar a vida no futuro. Não tenho certeza de que os gigantes dos dados pensam explicitamente nesses termos, mas suas ações indicam que dão mais valor aos dados acumulados do que a meros dólares e centavos.

Humanos comuns vão descobrir que é muito difícil resistir a esse processo. No presente, as pessoas ficam contentes de ceder seu ativo mais valioso – seus dados pessoais – em troca de serviços de e-mail e vídeos de gatinhos fofos gratuitos. É um pouco como as tribos africanas e nativas  americanas que inadvertidamente venderam países inteiros a imperialistas europeus em troca de contas coloridas e bugigangas baratas. Se, mais tarde, pessoas comuns decidirem tentar bloquear o fluxo de dados, podem descobrir que isso é cada vez mais difícil, especialmente se tiverem chegado a ponto de depender da rede para todas as suas decisões, até mesmo para sua saúde e sua sobrevivência física.

Humanos e máquinas poderão se fundir tão completamente que os humanos não serão capazes de sobreviver se estiverem desconectados da rede. Estarão conectados desde o útero, e, se em algum momento da vida você optar por se desconectar, as companhias de seguro talvez se recusem a lhe fazer um seguro de vida, empregadores talvez se recusem a empregá-lo, e serviços de saúde talvez se recusem a cuidar de você. Na grande batalha entre saúde e privacidade, a saúde provavelmente vencerá sem muito esforço.

À media que, através de sensores biométricos, cada vez mais dados fluírem de seu corpo e seu cérebro para máquinas inteligentes, será fácil para corporações e agências de governo conhecer você, manipular você e tomar decisões por você. Mais importante ainda, eles serão capazes de decifrar os mecanismos profundos de todos os corpos e cérebros, e com isso adquirir o poder de fazer a engenharia da vida. Se quisermos evitar que uma pequena elite monopolize esses poderes, que parecem divinos, e se quisermos impedir que a humanidade se fragmente em castas biológicas, a questão-chave é: quem  é o dono dos dados? Os dados do meu DNA, meu cérebro e minha vida pertencem a mim, ao governo, a uma corporação ou ao coletivo humano?

(…)

A propriedade privada de seus próprios dados soa mais atraente do que qualquer dessas opções, mas não está claro o que isso quer dizer. Tivemos milhares de anos experiência de regulação da propriedade da terra. Sabemos construir uma cerca em torno de um campo, pôr um guarda no portão e controlar quem pode entrar.  Nos dois séculos passados nos tornamos extremamente sofisticados  em regular a propriedade da indústria – hoje posso comprar ações e ser dono de um pedaço da General Motors e um pedacinho da Toyota. Mas não temos muita experiência em regular a propriedade de dados, que é inerentemente uma tarefa mais difícil, porque, ao contrário da terra e de máquinas, os dados estão em toda parte e em parte alguma ao mesmo tempo, podem movimentar-se à velocidade da luz, e podem ser indefinidamente copiados.”

Assim , faríamos melhor em invocar juristas, políticos, filósofos e mesmo poetas para que voltem sua atenção para essa charada: como regular a propriedade de dados? Essa talvez seja a questão política mais importante de nossa era. Se não formos capazes de responder a essa pergunta logo, nosso sistema sociopolítico pode entrar em colapso. As pessoas já estão sentindo a chegada do cataclismo. Talvez seja por isso que cidadãos do mundo inteiro estão perdendo a fé na narrativa liberal, que apenas uma década atrás parecia irresistível.

Como, então, avançar a partir daqui, e como lidar com os imensos desafios das revoluções da biotecnologia e da tecnologia da informação? Talvez os mesmos cientistas e empresários responsáveis pelas disrupções do mundo contemporâneo consigam alguma solução tecnológica? Por exemplo, será que algoritmos em rede poderão fornecer as estruturas de uma comunidade humana global que poderia ser, coletivamente, dona de todos os dados e supervisionar o desenvolvimento da vida?”

Trecho do livro “21 lições para o século 21”, de autoria de Yuval Noah Harari.

Leia também a postagem:

A internet e o regime de proteção de dados do consumidor no Brasil

Quais são os riscos do investidor?

Risco do investidor

 

O consumidor precavido reserva parte de seus rendimentos para aplicações financeiras que permitirão a ele efetuar compras futuras de bens e serviços de alto valor unitário (a viagem de férias ou a compra da casa própria), ou fazer frente a gastos inesperados (as despesas do conserto de seu automóvel ou de uma consulta médica de emergência).

Quando escolhe direcionar os recursos poupados para uma determinada aplicação financeira, o consumidor deve fazer alguma avaliação dos riscos envolvidos nos diferentes tipos de aplicações disponíveis no mercado. Ainda que busque o aconselhamento de um gestor financeiro, por exemplo, o do seu gerente de banco, é imprescindível que o consumidor/investidor disponha de algumas ferramentas analíticas para orientar o seu processo decisório. Aplicações financeiras envolvem cálculos de avaliação de risco, rentabilidade e liquidez.

Entenda um pouquinho mais sobre os principais tipos de risco relacionados à compra de um ativo. São três os principais tipos de risco com os quais o investidor se defronta:

  • o risco de liquidez, que está relacionado com a velocidade de conversão da aplicação financeira ou de um ativo qualquer em dinheiro. Isto significa que aplicações financeiras apresentam diferentes prazos de resgate. Portanto, quanto mais longo o prazo de resgate, menor a liquidez da aplicação. Por exemplo, se você efetuar um resgate da sua caderneta antes do “aniversário” da mesma perderá os rendimentos. Alguns fundos de investimento indicam o prazo para poder resgatar a aplicação: D+3, indica que, uma vez realizado o resgaste, o dinheiro estará disponível na sua conta corrente três dias úteis após o pedido. Também existem ativos com liquidez baixa e incerta: se você coloca um automóvel ou um imóvel de sua propriedade à venda não há nenhuma garantia de que você conseguirá vendê-lo nos próximos trinta dias.

 

  • o risco de crédito, que está relacionado com a possibilidade do investidor não receber o montante aplicado de volta. Quando um banco emite um título, um certificado de depósito bancário (CDB) ou uma empresa vai ao mercado tomar recursos emprestados via debêntures, existe um risco de “default”, ou seja, o banco ou a empresa em dificuldades financeiros podem não honrar os títulos emitidos. Importante salientar que o sistema financeiro opera com salvaguardas estabelecidas pelas autoridades monetárias para garantir as aplicações dos investidores. Por exemplo, os títulos emitidos por bancos, como CDB, Letras de Crédito Imobiliário (LCI) e caderneta de poupança, entre outros, estão garantidos pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC) para aplicação individual de até R$ 250 mil efetuada junto a uma determinada instituição financeira.

 

  • o risco de mercado, que está relacionado com a mudança de preços dos títulos. Quando, por exemplo, um investidor compra títulos do Tesouro Direto deve saber que uma alta da taxa de juros definida pelo Banco Central reduz o preço de mercado dos papéis com rendimentos prefixados. Nesse caso, se o investidor resolve liquidar seu título antes do vencimento receberá um valor menor pelo papel. O risco de mercado também é uma característica dos papéis de renda variável (fundo de ações) e das ações comercializadas na Bolsa de Valores.  São mercados muito voláteis, pois qualquer mudança no cenário econômico geral, e mesmo uma notícia em relação a uma empresa ou ao setor de negócio em que ela opera, afeta o valor de negociação do ativo.

 

Na hora de investir esteja atento para a relação entre risco e retorno. Ativos que prometem retorno mais elevado são também aqueles que oferecem maiores riscos, tanto o chamado risco de crédito, quanto o risco de mercado. Para o consumidor que poupa dinheiro para gastos contingenciais e emergências é preferível fazer aplicações em papéis de elevada liquidez e baixo risco de mercado. Portanto, ele terá de abrir mão de uma rentabilidade mais elevada pela garantia de maior segurança na aplicação. Já o consumidor, que apresenta um perfil de investidor mais arrojado e que dispõe de um montante de recursos que cubra com alguma folga gastos emergenciais, pode destinar uma parcela de seus investimentos em papéis que oferecem maior rentabilidade, sabendo que, em geral, essas aplicações oferecem risco de crédito e de mercado. Uma regra prudencial, caso você, consumidor, queira investir em papéis de renda variável, é diversificar suas aplicações, buscar aconselhamento financeiro de profissionais qualificados e nunca alocar mais do que 30% da sua poupança em ativos de risco.

Bons investimentos!!!

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Alerta “black friday”

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Os consumidores devem ficar atentos aos riscos de golpes

 

Começaram nesta sexta-feira, dia 16 de novembro as ofertas da “Black Friday”, período de promoções pré-natalinas mais aguardado pelos consumidores e pelo comércio varejista. Porém, com o grande volume de dinheiro que circula nessa temporada,todo cuidado é pouco.  Veja como se precaver contra as fraudes.

 

  • Consulte as lojas virtuais que aderiram ao “Black Friday Legal 2018”

O Selo Black Friday Legal é concedido pela Câmara Brasileira de Comércio Eletrônico (camara-e.net) e identifica as empresas que aderiram ao Código de Ética da iniciativa, comprometendo-se com as boas práticas do e-commerce, e foram aprovadas no processo de avaliação da entidade. Verifique as empresas participantes clicando aqui.

  • Procure no site informações básicas sobre o fornecedor

Procure identificar dados como nome empresarial, CNPJ/CPF, endereço físico e eletrônico e outras informações que facilitem o seu contato com o fornecedor, como determina o Decreto nº 7.962/2013, que regulamenta a contratação no comércio eletrônico. Você também pode consultar bancos de dados oficiais, como a Receita Federal.

  • Informe-se sobre a reputação da loja em que pretende comprar

É importante que o consumidor verifique a reputação da loja antes de efetuar a compra. Busque informações na internet, experiências de amigos e familiares sobre o modo de atuação da empresa. Pesquise sobre entregas, preços e qualidade dos produtos recebidos.

  • Identifique se o site da empresa possui conexões seguras para proteção de seus dados

Antes de inserir qualquer dado pessoal, verifique a presença do “https” no início do endereço eletrônico. Verifique também se, em cima da tela de compra, no browser, há o cadeado ativado indicando que o site é seguro.

  • Verifique a presença de certificados de segurança de pagamentos nas transações bancárias realizadas com o fornecedor

Forneça seus dados bancários apenas a sites que possuam certificado de segurança. Evite pagamentos ou compras por meio de computadores de terceiros ou redes wi-fi públicas.

  • Fique atento a e-mails e sites fraudulentos.

Os consumidores devem estar alertas a e-mails não solicitados e links que levam a sites fraudulentos ou a instalação de malware nos computadores ou dispositivos móveis. O malware é um programa de computador destinado a infiltrar-se em um sistema de forma ilícita, com o intuito de causar danos, alterações ou roubo de informações

  • Consulte a variação de preços dos produtos.

Verifique o preço dos produtos que deseja comprar antes do período da “Black Friday” para que possa avaliar a variação do preço promocional e se os descontos ofertados valem a pena.

  • E se eu desistir da compra? O Código de Defesa do Consumidor protege você.

O art. 49 do CDC prevê que a pessoa que adquire produto ou serviço fora do estabelecimento comercial pode desistir da compra no prazo de sete dias corridos, a contar da data do recebimento do produto ou assinatura do contrato. Se o consumidor desistir da compra durante esse prazo, os valores eventualmente pagos deverão ser devolvidos.

  • Pensar bem antes de efetuar a compra.

É importante que os consumidores façam uma pesquisa de preços, buscando uma boa opção tanto para quem compra como para quem ganha o presente. Outro ponto importante é não comprar por impulso e evitar endividamento excessivo na aquisição de qualquer presente.

  • Guarde os registros de compra e notas fiscais.

Caso o consumidor necessite comprovar que efetuou uma compra, notas fiscais, e-mais de confirmação, protocolos de atendimento e códigos de localização ajudarão da comprovação da compra.

Fonte: Portal do Consumidor – Ministério da Justiça

Propaganda enganosa e propaganda abusiva

 

Propaganda enganosa

Segundo o Código de Defesa do Consumidor (CDC), propaganda enganosa ou abusiva é crime

 

A propaganda enganosa é aquela capaz de induzir o consumidor a erro, prometendo algo que na realidade não vai ocorrer. Por exemplo, se ela apresenta um produto ou serviço com características ou qualidades que não fazem parte de seus atributos reais, ou quando a propaganda deixa de informar sobre atributos essenciais de um produto ou serviço.

A propaganda abusiva é aquela que apresenta algum tipo de discriminação, incitação a violência, explora o medo ou superstição, se aproveita da condição de criança, ou desrespeita valores ambientais. Também é considerada abusiva a propaganda que levar o consumidor a se comportar de forma prejudicial ou perigosa em relação à sua própria saúde ou segurança.

No artigo 37, o CDC define os atributos da propaganda. No artigo 37, são apresentados as características que permitem identificar a propaganda enganosa ou abusiva. E, por fim, no artigo 67, qualificam-se como crime as práticas comerciais identificadas com aquelas condutas, e apresentam-se as respectivas previsões de pena.

 

Eis o texto do CDC que regulamenta a propaganda:

Da Publicidade

        Artigo 36. A publicidade deve ser veiculada de tal forma que o consumidor, fácil e imediatamente, a identifique como tal.

        Parágrafo único. O fornecedor, na publicidade de seus produtos ou serviços, manterá, em seu poder, para informação dos legítimos interessados, os dados fáticos, técnicos e científicos que dão sustentação à mensagem.

        Artigo 37. É proibida toda publicidade enganosa ou abusiva.

  • 1° É enganosa qualquer modalidade de informação ou comunicação de caráter publicitário, inteira ou parcialmente falsa, ou, por qualquer outro modo, mesmo por omissão, capaz de induzir em erro o consumidor a respeito da natureza, características, qualidade, quantidade, propriedades, origem, preço e quaisquer outros dados sobre produtos e serviços.
  • 2° É abusiva, dentre outras a publicidade discriminatória de qualquer natureza, a que incite à violência, explore o medo ou a superstição, se aproveite da deficiência de julgamento e experiência da criança, desrespeita valores ambientais, ou que seja capaz de induzir o consumidor a se comportar de forma prejudicial ou perigosa à sua saúde ou segurança.
  • 3° Para os efeitos deste código, a publicidade é enganosa por omissão quando deixar de informar sobre dado essencial do produto ou serviço.

Das Infrações Penais

        Artigo 67. Fazer ou promover publicidade que sabe ou deveria saber ser enganosa ou            abusiva:

        Pena Detenção de três meses a um ano e multa.

Comprar ou não comprar… quem decide o jogo?

 

VamosComprar

O dia em que a neurociência (*) vai às compras

 

Como o cérebro se comporta em uma liquidação? O que nos faz perder o controle diante de ofertas “imperdíveis” de produtos, bem, não tão necessários assim?
Decisões de comprar ou não comprar envolvem considerações complexas sobre o que está disponível, seu custo, a necessidade real de obter o produto e as preferências pessoais do consumidor. Uma teoria supõe que essas decisões refletem simplesmente a antecipação de ganhos com a compra em questão. A hipótese que ganha o apoio da neurociência, no entanto, é outra: decidir comprar depende de uma competição entre os circuitos cerebrais que representam o prazer imediato de adquirir um objeto e os que representam a dor imediata de pagar por ele. Quem falar mais alto no cérebro – o prazer de comprar ou a dor de pagar – conquista a decisão.

Teoria

A teoria do toma-lá-dá-cá das decisões econômicas é apoiada por evidências de que circuitos cerebrais diferentes cuidam da antecipação de custos e benefícios e são ativados em momentos específicos de uma decisão de compra.

Representando o prazer antecipado do ganho material temos o núcleo acumbente, cerne do sistema de recompensa cerebral, cuja ativação é motivadora, depende de nossas preferências pessoais e prediz o que será comprado. Representando as perdas financeiras antecipadas, temos o córtex da ínsula, responsável por emoções negativas como o desgosto e a ansiedade, cuja ativação em resposta ao preço do objeto em questão serve como um freio que mantém a carteira fechada. Entre os dois, e associado à decisão de compra, temos a porção medial do córtex pré-frontal, ativado em resposta a produtos cujo preço é menor do que o preço-limite do consumidor – como em uma espécie de liquidação.

“Compra, compra”

O cérebro humano é, portanto, um prato feito para a liquidação da sua loja favorita: diante de preços reduzidos, o núcleo acumbente diz “eu gosto disso”, o córtex pré-frontal medial diz “puxa, custa menos do que eu aceitaria pagar normalmente”, a ínsula não se opõe e outra região do pré-frontal, que tenta evitar arrependimentos, ainda diz “compra, compra!”.

Some-se a isso estratégias de marketing que minimizam a dor do pagamento, reduzindo o custo aparente em parcelas pequenas, um pedaço de plástico que deixa o dinheiro na carteira e tem-se o drama do consumidor que se descobre endividado ao chegar em casa. Para a ele, a neurociência tem uma dica: deixar o cartão em casa e levar apenas dinheiro quando for à liquidação. Com o risco, claro, de perder aquela oportunidade incrível…

 

Suzana Herculano-Houzel, neurocientista

 

(*) A neurociência se ocupa em estudar o sistema nervoso, visando desvendar sua estrutura, seu funcionamento e desenvolvimento. Quando associada à análise do comportamento dá origem à psicologia comportamental, área que estuda o contato do organismo e os seus fatores internos, como pensamentos e emoções, ao meio e aos comportamentos visíveis, como fala, gestos, avaliações, decisões e outros.